Machado de Assis e sua dama do livro
Conta-se que, por volta de 1885, já maduro e gozando de grande prestígio, Machado tinha hábitos bastante regulares. Saía da repartição pública em que trabalhava, passava as tardes na livraria Garnier, conversando com amigos e com leitores, que por lá apareciam principalmente para vê-lo, e depois ia para casa.
Mas, de repente, deixou de aparecer na Garnier. Os amigos suspeitaram- ou quiseram suspeitar- que ele estava com uma amante. Muito enxeridos e galhofeiros, decidiram seguir Machado, na saída do trabalho, para descobrir de quem se tratava. Ora, de fato, dera com uma mulher, por quem Machado se apaixonara...
Era A dama do livro. Machado parava para vê-la todas as tardes. Passava horas admirando-a, ela lá em sua vitrina- um quadro do pintor italiano Roberto Fontoura, de 1882, e cujo preço, apesar de tanto gostar da pintura, Machado considerou caro demais para seus ganhos.
Os amigos então se cotizaram e lhe deram o quadro de presente. Machado, em retribuição, escreveu um soneto para eles, o "Soneto circular". O quadro hoje faz parte do acervo da Academia Brasileira de Letras (ABL).
A seguir, o quadro, e soneto:
Soneto Circular
A bela dama ruiva e descansada,
De olhos longos, macios e perdidos,
C’um dos dedos calçados e compridos
Marca a recente página fechada.
Cuidei que, assim pensando, assim colada
Da fina tela aos flóridos tecidos,
Totalmente calados os sentidos,
Nada diria, totalmente nada.
Mas, eis da tela se despega e anda,
E diz-me: — “Horácio, Heitor Cibrão, Miranda,
C. Pinto, X. Silveira, F. Araújo,
Mandam-me aqui para viver contigo.”
Ó bela dama, a ordens tais não fujo.
Que bons amigos são! Fica comigo.

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