Francesca Woodman e Clarice Lispector: Um diálogo intersemiótico

Francesca Woodman e Clarice Lispector. Respectivamente, uma é fotógrafa norte-americana, a outra, umas das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos. Presentes aqui, nesse post, por um diálogo de signos verbais e não verbais. Os trechos a seguir mostrados pertencem à obra "Um Sopro de Vida", de Clarice.


01- Loucura   

"Refugio-me na loucura porque não me resta o chato meio-termo do estado das coisas comum. Quero ver coisas novas- e isso só conseguirei se não tiver mais medo da loucura." (Clarice Lispector em "Um Sopro de Vida".)



Untitled, 1977–1978.


02- Sensualidade

"Quero que me perdoem eu ser tão cheia de sensualidade que é um grito animal dentro de mim, um gosto de voz aguda de lobo desejando a presa, eu! eu que aspiro à grande desordem dos objetos vis e as trevas que me possuem no orgasmo apocalíptico do meu existir". (Clarice L. em "Um Sopro de Vida".)


On Being an Angel 1, 1977.


03- Solidão

"Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo." (Clarice L. em "Um Sopro de Vida".)


Untitled, 1978.

Nas duas obras, a solidão é sempre melancólica. Mas, uma solidão feliz, no sentido em que é benéfica, necessária.


04- Conflito

"Eu sempre quis atingir um estado de paz e de não luta. Eu pensava que era o estado ideal. Mas acontece que- que sou eu sem a minha luta? Não, não sei ter paz." (Clarice L. em "Um Sopro de Vida".)


Untitled.

Os conflitos internos, tanto na obra de Clarice como nas fotografias de Francesca, são sempre conflitos que estão buscando alguma explicação para a existência. Na foto acima, isso pode ser percebido pelo espelho no qual a modelo está situada. Ela não pára, atentando seu olhar para o espelho, mas se remexe, se contorce, numa forma de não aceitação daquilo que ela vê, como uma busca, um conflito que apenas ela resolveria. Assim como Ângela.

05- O corpo como projeção espiritual

Nesse sentido, há um diálogo no que se diz respeito à forma como o corpo reflete o estado de espírito do ser. Em "Um Sopro de Vida", Ângela é constantemente tomada por um caos, um paradoxo de silencio e abismo que habita o corpo da personagem. 

"O dia corre lá fora à toa e há abismos de silencio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma". (Clarice L. em "Um Sopro de Vida".)


Untitled

Na fotografia, percebemos o corpo, pernas, seios, braços. Rosto e parte do tórax ficam escondidos. Ao dizer que "A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma", Ângela acaba materializando sua própria alma. O corpo, não é mais matéria, mas a sombra da matéria, que é a alma. Assim, a alma, segundo a personagem, é a parte mais importante dela mesma. 



Citações: LISPECTOR, Clarice. Um Sopro de Vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1978.

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